Abrigo – Chris Fonte

•04/09/2009 • Deixe um comentário

bocadebeijar

Entorpecida entre laços e apertos, seu canto calado se afoga no beijo. Corpo pálido, visão difusa que tudo mistura.  Deleite de quem tem fome se doa, se comove e se move com lentidão. Corpo informe, fome que devora a solidão.

Então nesta noite sem estrelas onde o frio é cortante, me aconchego no teu corpo, abrigo dos sentidos, onde meus olhos se fecham e minha boca… Bebe na tua.

Chris Fonte

Pastor e nauta. “Chris Fonte”

•03/09/2009 • Deixe um comentário

chrisvert

Pastor e Nauta


Amo-te e falo deste amor como pastor e nauta.

Grito pelo desejo de ter-te junto a mim como um naufrago.

Deslizo meu olhar sobre o teu rosto e vejo posto ali

Sorrisos e desgosto.

Não durmas para que sonhes com aquela outra.

Contudo sonha-me como anjos alados que te guardam.

Busca-me sim, cá dentro aquela que um dia fui.

E ata-me novamente a ti, para que nunca mais eu me perca de mim.

Chris Fonte

O Espaço – Chris Fonte

•17/07/2009 • Deixe um comentário

 

christiannikatzblue

 

 

 

 

 

 

 

 

 

          Meu mar era assim, marés altas, baixas e várias ondulações. Escondida atrás das janelas aquelas lágrimas de chuva as molhava. Era quase um rito naquelas noites longas, intermináveis de fato. Contudo era como se por horas seu quarto fosse um suspense total, um eclipse imaginário onde a deixava presa naquele grande e ardiloso espaço.

          Ver as ondas de forma escondida, achar que aqueles beijos na areia eram tão inesperados como os beijos que se perderam com o tempo. Algo que ficou ali, quieto sem ruído algum. Na verdade o que a motivava era o fato do rosto dele não sair de sua cabeça. Nas noites mais quentes, seu vício era esboçá-lo num pedaço de papel que reluzia sob a luz azul da TV.

          Revirava-se no tapete inventando sorrisos e um céu estrelado só dela. Talvez, todas as suas invenções tenham sido exageradas, mas sua pose de princesa e bochechas rosadas a fazia rodopiar feito à rosa dos ventos. Um balé de exibição ofegante, diante das ondas e daquele “céu-espaço-intranquilo”, coisa de instinto animal. 

          E lá estava ela sozinha com todo aquele espaço, um presente, uma delicada lembrança, um alívio que nunca quis sentir. Uma branca neve, algo que nunca viu; um salto inesperado, uma distância louca de si mesma.

          Contudo sempre haverá uma canção que cante tudo sobre ela, que cante tudo sobre os dois, mesmo que esta música venha daquele mar, e que as letras estejam escritas na areia da praia junto com o esboço do rosto dele, que teima em sumir para ser reinventado por ela naquele espaço.

 

Chris Fonte.

Sentidos – Chris Fonte

•17/07/2009 • Deixe um comentário

christianni

 

 

        

 

 

 

 

 

 

 

 

           O vestido rodado contrastava com as luzes que atravessavam as cortinas de cetim barato. Estavam repicadas pelo tempo e por tudo que se temia. Olhando assim de lado, no lusco-fusco daquele ambiente que se dividia em sonhos encomendados, a silhueta desajeitada descansava desbotada em tons de marfim. Não pense que era covardia, mas sim, timidez, uma mistura de pedidos desmedidos, exaustão e sorrisos largos.

          Os saltos de carmim e as roupas lustrosas dançavam diante de seus olhos, nenhuma brisa, nenhuma chuva, nem à noite, tão pouco a luz do dia. Não havia respiração, não havia raciocínio. Nada era lógico para quem vivia no inferno do fogo, na luz da noite.

          Mas em tudo que ouvia, era como se fosse um crime sem defesa, uma alma perdida. Um sustento perdido no tempo, no fundo do seu olho. Cirandava vestida de princesa, uma coroa de hortaliças e um cetro que não continha magia. No tempo de um abraço sempre era outra pessoa, todos os dias se modificava e se mortificava.

          Nalgum lugar, no passado, no futuro então, haveria alguém melhor que ela, algo mais colorido e vivo do que ela almejava ser. Tudo tão passional quanto à inércia de seu próprio corpo fotografado com seu copo preferido na mão. O mundo naquele momento girava em torno dela, uma forma inédita para ela. Era a revolução de todos os seus sentidos, de todos os seus desejos. Seu olhar estava preso em passos pequenos, em vestígios de imensa solidão e até certa dose de ironia.

          Sua presença ali era doce e terna, um relance do cansaço da noite refletindo no calor da falta de um abraço. Um mergulho num mar impuro, um vinho acima da temperatura, um banho num chuveiro úmido. Seus traços agora pensados no esfumaçado espelho, eram de desespero. Cabelos molhados, à noite, e um suspiro desajeitado, uma voz que não fazia efeito, uma espera de si mesma.

          Nada exorcizava o que sofreu. Sozinha no quarto a fraqueza era querer usar o azul do céu na cor do seu vestido. Mas aquele baile exibicionista iria começar mais uma vez, por isso não podia. Contudo a vida fluía em seus poros, talvez sem timidez, mas banhada numa certa covardia. Em palavras, nos seus olhos buscava as estrelas, pois só sabia ser feliz assim.

 

Chris Fonte.

Borboletinha – Chris Fonte

•25/10/2008 • 3 Comentários

 

 

 

Borboletinha

Chris Fonte

l

Em suas asas coloridas

Nas revoadas de cetim

Brinca, brinca a borboleta

Voando em meu jardim

ll

Passa o tempo, formosa vida

Nas estradinhas de capim

Brinca, brinca a borboleta

Sorridente em meu jardim

lll

Sua beleza pousa afoita

Nos meus lábios de carmim

Brinca, brinca a borboleta

Na minha pele de marfim

 

“E Leve voa a borboleta na estradinha de capim…”

Evidências – Chris Fonte

•30/09/2008 • 1 Comentário

Tinha mudado as cores de todas as cortinas, agora tudo combinava com a tonalidade de sua pele, e com a cor do batom vermelho que usava todos os dias em seus passeios imaginários. Lá fora onde o sol queimava a pele, e a chuva trazia o refrigério, à vida corria em outro ritmo. Estava muito além daquela vida. Era como se atrás das cortinas agora carmim, fosse testemunha de vários desejos alheios, dos sofrimentos e dos sorrisos que ali, bem embaixo da sua janela, as pessoas dividiam com ela.

Talvez ela estivesse fugindo desse próprio mundo que admirava tanto. Pensava consigo mesma: O que teria mudado ao longo dos anos? Seriam aqueles que se passaram pulsantes bem em frente de seus olhos? Seria o amor? As pessoas?

Mas sabia que seus sentimentos estavam dizendo ainda que gelatinosamente a mesma coisa. Sabia que o amor era um sentimento elevado, vinha de sua alma. Por isso, ele precisava de um corpo e de uma mente preparados para recebê-lo de forma adequada.

Mas aqueles dias eram dias desleais para ela, seu único interlocutor era o espelho, pois mesmo que silenciosamente, dizia na sua cara que os anos estavam pesando, em cada marca, em cada ruga expressiva ou não.

Marcava seu corpo indelevelmente com um passado já sofrido, e na tentativa de respirar, inventava um destino incerto. Via nas novas cortinas o oscilar dos sonhos banhados num vermelho intenso. E ali bem ao seu lado observava os números nas horas do seu despertador em forma de pássaro, uma fênix, ela pensava sempre. Renascendo a cada dia no tic-tac, tic-tac musical de seus desesperos e de seus incessantes gritos a beira da janela do tempo.

As brancas paredes estavam manchadas, borradas com marcas de batom, uma história escrita atrás das cortinas, sua prisão em movimento, um teatro inesperado, só dela e para ela. Nada faz sentido para quem tem um mundo a vencer e ela tinha que vencer muito mais.

Fim


Guerra Interior – Chris Fonte

•09/08/2008 • 1 Comentário


Bem…Vêem que sou humana, e como todo humano frágil. Ou seria mais forte do que vocês, porque não temo perder o que tenho em mim ?


Guerra interior


Como poderá haver entrega num mundo de tão fúteis valores? Ainda mais fragilizada pelas expectativas indóceis dos meus oponentes. Quixote e escudeiros dementes, mataria um dragão por dia para manter minha sanidade intacta. E mesmo assim sobreviverei ao céu de lanças e flechas atiradas pelos supostos amigos?

Agora virei um porre humano estonteante. Retiraram tudo de mim, me consumiram como erva, me tornei um produto de consumo, disputado no mercado ávido e consumista. Minhas vísceras ficaram expostas em busca da amizade, lealdade e amor, droga leitor o amor não era para ferir e sim revigorar, fazer viver. Acho que foram lutas insanas. Sei lá.

Dragões e flechas atiradas no chão e a pobre mulher investindo sua frágil armadura humana, procurando defender seus nobres princípios acreditando em pessoas justas e sentimentos puros!
Mentirosos e enganadores. Bem, deixem que eles se afundem nas virtudes movediças desta praia de loucos. Maldito mundo de mentiras. Pertence a eles. A mim não. Quando seus gritos de socorro forem enterrados nas areias do esquecimento, se lembraram de mim. Lembrará-se de mim.

Vou ter que sobreviver a isto, não vou abdicar dos menores princípios que me regem, se não pela vontade espontânea de realizar o que for ditado pelo coração e pelo bom senso. E ver em tempo o fim da história.

Chris Fonte

Sem Asas – Chris Fonte

•09/08/2008 • Deixe um comentário


És aquele mundano
Que busca seu canto
No canto do olho
Direito

Que sai pelas noites
Tórridas, lacrimejantes
Profano anjo sem asas
Caído

Tomando almas
Lambendo corpos
Almas sutis que corrompes
Sem golpes

Teus olhos verdes
Tua pele cálida
Embala, minhas
Entranhas

Estranha magia
Feitiçaria, “macumbaria”
Que me rendeu
Desespero de amor

Misturando a emoção
De provar-te
Decifrar-te
Nos movimentos
De tuas entranhas

Deixa, calar-te
No escarlate deste beijo
E cobrir teu corpo
Neste linho da mesma
Cor

Chris Fonte

Flor de Lótus

•08/08/2008 • Deixe um comentário

Nada era o que parecia ser ou tudo que ela via não passava de vultos de um tempo onde a memória se perdia. Pensamentos fragmentados, corpo abrasivo, silêncio feito de ausência.

Com lábios entreabertos e displicentes, como as asas daquela xícara de café borrando a toalha de linho e a indefinível visão de um cigarro queimando entre os dedos.

Os pensamentos, como fumaça, gritavam entre as quatro paredes. Aqueles silêncios, aquela fumaça não tinham passado, presente ou futuro. Eram os furos no mundo e de um outro lado uns casulos, cercados de farpas latejantes. Era uma em três, por isso não sabia de onde vinha aquela chuva e depois dela, era uma só, novamente toda doce, toda ácida como a rima da vida.

E neste movimento quase que perpétuo, ela permitia que todo o seu saber se sedimentasse, fortalecida pela sabedoria de sua vida. Mas a sabedoria acumulada feito água no cano, tinha para ela um canto diferente, até porque o seu coração ainda batia, e bombeava sangue em suas veias. Sobre seu peito marcado de um ocre vermelho, a terra pigmentada assinalava símbolos de um mistério que ela não sabia entender.

Então, oculta e adormecida desejando aflorar novamente, cheira sua flor de lótus e flui para sua antiga consciência, redescobrindo naquela flor seu próprio ritmo, desejo e sua necessidade de permanecer permeável, sem estar no fundo de um poço sem fundo.


Chris F.

Meninos e Meninas

•05/08/2008 • 1 Comentário

Meninos e Meninas

Ás vezes as palavras podem modificar as coisas, podem transformar. Olhar o mundo e ver nele simbolos de uma vida inteira. Um cenário incontestável de verdades. Composições do coração em palavras. Lembro-me de quando eu era menina e ouvia os casos, e as histórias que eram fantásticas, todos sabíamos disto. Mas nunca ouvíamos dizer: “Você está mentindo”. Faz pouco tempo que me dei conta, que naqueles casos o julgamento da verdade e falsidade não entravam, pois tudo era dito para construir mundos belos, engraçados, grotescos e fantásticos.

Mas nunca falsos. Portanto chegou um tempo, onde as palavras deixaram de significar e abandonaram o mundo de fantasia, da verdade e da falsidade. Com isso passaram a existir ao lado das coisas visíveis. Assim podemos nos confundir e cometer grandes equívocos. Um deles e quem sabe o mais temível, ocorre a todo momento com várias pessoas: “Esquecemos dos contos, das histórias fantásticas e deixamos de sonhar cada palavra.” Deixamos de vislumbrar mundos incríveis, seres mágicos, criaturas inventadas. Deixamos de ser simplesmente, meninos e meninas, de corações abertos.


Um beijo, um beijo infantil.

Chris F.

Duplo

•03/08/2008 • Deixe um comentário


Duplo


Então eu estava diferente. E ele foi direto para o banheiro, abriu o chuveiro e começou a falar sozinho. Cantou, e também pronunciou palavras que me faziam vibrar em freqüências diferentes. Abriu seu pulmão, e a cada respiração que dava, eu podia sentir as moléculas de ar dançando em todas as partes.
Eu estava vazia, e meu vazio lhe abraçava por todo os poros. Eu era um ser totalmente em branco e ele era meu contorno imaginário.


Pensei, em tirar uma foto de mim mesma, retratar de algum modo todo aquele momento de dúvidas e incertezas. Não pude fazê-lo.
Então ele se posicionou em frente ao espelho e lá escreveu o que eu estava sentindo de forma embaçada. Foi quando dormi.
Assim que acordei, curiosa, fui até o banheiro para ler a frase que ele ali deixara. Mas ela não estava mais lá, havia evaporado.
Nem ele, nem eu, tínhamos todos evaporados como aquele texto que se perdeu em poucos momentos. O que restou foi um rosto, e dois olhos, que nunca se viram.


Chris F.

EscatológicaMente

•29/07/2008 • Deixe um comentário

- Acende a luz?
- Para que?
- Preciso ver melhor… Entender
- Ver o que?
- As inscrições que aparecem nesta parede pintada de pretoEra sua mente lar de todos os sonhos, os que não conseguia conter, vertiam em formas de lágrimas que borravam a maquiagem de boba da corte que estampava no seu rosto. Frio. Vivia solitária, naquela caixa de vidro onde sua respiração era a única coisa que tinha forma, pois brincava de esfumaçar o vidro para saber se anda tinha forças para lutar. Era toda ferida de farpas, não tinha mais a mesma habilidade que antes de suprimir os problemas e deixá-los para trás. Estava acuada demais, estava sem saída.
As lembranças chicoteavam seu presente, e a dor das coisas que nunca viveu eram maiores do que tudo. E ainda havia a saudade.
Dos dias de chuva.
Dos dias de sol.
Da pracinha.
Do olho verde.
Do menino mais lindo do colégio.

Saudades de quando imaginava ser feliz, sem precisar de muito.
Saudade daquele cara no sinal de trânsito gritar de dentro do carro: “Que pernas lindas você tem!”. E eu apenas tinha 15 anos

- Acende a luz?
- Para que?
- Preciso entender… Ver melhor
- Entender o que?
- Esta parede pintada de preto e essas inscrições que aparecem nela

A luz permanece apagada. Ele não a deixa compreender o que a leva ser assim. Então ela segue presa no tempo, tateando no escuro tentando achar aquela saída. Sua armadura está corroída pelo tempo. Não se movimenta. Recebe todos os golpes de uma forma alucinada, alucinante. Todos os seus pensamentos estão desencontrados tentando se encontrar. Seu grito está preso na garrafa. E o socorro não chega. Sua lucidez é sua melhor loucura, não fala mais coisa com coisa, tudo é um misto de medo, e incertezas. Seu peito esta incendiado por coisas que jamais cometera, dentro de sua cabeça sente os relâmpagos reluzentes que a conduzem para mais longe. Está drogada. Está com dor. Está sem alma.
Saudade de dormir bem.
Saudades de não sonhar.
Saudades de brincar.

Saudades de quando sentia que dominava o mundo, porque queria ser… Médica, ser forte, ser dentista, ser uma artista, queria ser da polícia, queria ser o Wolverine e dominar os sonhos feito o Sandman. Hoje não é porra nenhuma.
Saudades

Tornou-se talvez um porre ambulante, embriagando-se de si mesma, na insanidade diária, nas drogas diárias, nas vontades que assolam e perturbam seu espírito. Na Faculdade de Teologia… Escatologia era seu forte. Tão forte que vive cada dia de forma escatologicamente doentia.

Sem sentido. Onde está Pilatos?

Chris Fonte

Sentidos

•28/07/2008 • 1 Comentário

Bebe na minha boca e sente
este veneno
Que levemente se espalha
Dividindo contigo a loucura
de meus pensamentos
que nos invade neste quarto
de obscuros desejos

Bebe na minha boca e sente
este amargo
Que se espalha levemente
Nas nossas entranhas
no alívio do rio dos sentidos
no tapa que alivia toda dor
de não sentir o frescor do tempo

Bebe na minha boca e prova
da minha saliva
Que banha teus lábios
lascivos e pálidos de tantas mentiras

Bebe na minha boca e prova
esta coisa infome
Este meu beijo que te sela
Que me faz entorpecer

Bebe na minha boca as horas
que se perdem em cada parte
tua, minha, nossas
levando-nos a progressiva
dependência

Bebe na minha boca
estes sonhos de que nada é tão
medonho dentro deste peito

Bebe na minha boca
e dorme
para que eu descanse
entre as pontas de tuas asas

Depois
Prova-me que na loucura das horas
tudo pára.

Menos a vontade de dividir
contigo
os cinco cálices deste vinho

Que tomaremos
sem sentir
sentindo.

Chris Fonte

Algemas

•28/07/2008 • 1 Comentário

- Abre essas algemas vai.
- Não, eu não me sinto seguro…

Ele estava lá, e eu ali perdida no tom amarelado do quarto, no escuro do peito ferido de tantas verdades. Éramos como “uma coisa sem forma”. Não sabia mais onde eu começava e ele terminava. Somos agora uma mistura de água e terra, nos tornamos lama.
Eu buscava marcar no seu corpo a minha busca pelo melhor dele, ele tentava retirar dos meus olhos água parada que eu nunca mais lacrimejei. Descobrimos que no canto do olho direito é onde abrigamos os sonhos, e no olho esquerdo, isto mesmo, é ali que eles se perdem.
Ele abria suas asas e eu tentava fazer com que ele não voasse. Ele me dizia não escreva isto, mas nas paredes eu contava nossa história. Contudo ele queria estar livre, queria que eu pegasse a chave, mas acostumado a estar preso tinha medo vôo.
Então como há muito tempo não acontecia meu olhar ficou úmido, e quando me virei vi as algemas no chão. Ele estava de pé, livre e seguro de si. Precisava para se libertar de um choro sincero. E sem perceber, dei isto a ele. Abriu os pulmões, expandiu as asas e disse:

- Agora eu vou sair. Sem medo, sem algemas.
Foi assim que o sonho terminou nesta manhã de quarta-feira. Assim entendi, que os sonhos não podem viver aprisionados, de alguma forma temos que libertá-los. Mesmo que eles fiquem no campo passível de várias decepções. A Isto damos o nome de coragem, coragem para se jogar ao mundo e viver.
E com o passo do tempo aprendia que se pode manejar a espada ou sua bainha, como uma Donzela do Gelo, passeando numa nave que dá voltas em torno do sol.

Chris Fonte

Solitude

•26/07/2008 • 2 Comentários
Solitude

Solitude

Entorpecida entre laços e apertos, seu canto calado se afoga no beijo. Corpo pálido, visão difusa que tudo mistura. Deleite de quem tem fome, se doa, se comove e se move com lentidão.

Corpo informe, fome que devora a solidão?

Não.

Então, nesta noite sem estrelas, onde o frio é cortante, me aconchego no teu corpo, abrigo dos sentidos, onde meus olhos se fecham e minha boca… Bebe, se perde na tua.

Chris K. Fonte. Foto  e Texto

Mosaico

•06/07/2008 • 2 Comentários

Sou esses cacos,

estes pedaços soltos de mim.

Sou estas aparições, desmedidas,

descaradas, raras de se ver.

Mas sou o todo deste corpo,

onde o vento sopra

e dele faz o mosaico

de tudo que eu sou!

Chris Fonte

Azul

•06/07/2008 • 1 Comentário

De tanto azul,
deixei-me banhar.
Do céu, do mar!

Ai de mim ser tão azul

Azul na alma, no olhar
Tão céu, tão mar!

Chris Fonte

Ballerina – Por Christianni Fonte

•29/06/2008 • 1 Comentário

Mas como é Linda a Ballerina!
Como Dança e se alonga.

Nas curvas do tempo.
Vento!

Nesta dança nos alenta…
Ao vento balança.

Atemporal.

Linda dança Ballerina.
Doce Ballerina!
Rosa dos Ventos Dança!

Chris Fonte.

Morte e Solidão – Por Christianni Fonte

•29/06/2008 • Deixe um comentário

Morte e Solidão
Por Christianni Fonte

A ocasião era o funeral de um homem Palestino, e os protestos corriam no coração da cidade de forma absolutamente violenta.

Tav fora morto e torturado de uma forma nunca vista pelas autoridades Palestinas. Pequenas perfurações em torno do pescoço, pulsos e virilha, na calçada não havia qualquer mancha de sangue, o que sugeria que ele havia sido vítima de um carrasco terrível.
Seu órgão genital encontrava-se completamente dilacerado, abdômen e tórax estavam rasgados e os conteúdos completamente secos. Em seu corpo por mais que se procurasse nem uma gota de sangue havia. Tav fora sugado até a morte.
Nenhuma imagem do corpo fora exibida, seria mesmo terrível mostrar fotografias de uma atrocidade como aquela. A única coisa que se sabe é que a investida que antes tivera sido atribuída aos Israelenses caíra por terra quando junto ao corpo fora encontrada uma inscrição Árabe onde dizia: “Sou Senhor absoluto da noite”.

Vou tentar contar a história…

Sobre a inscrição, quero dizer que fui eu mesmo quem deixou lá, porque me bastou chegar a Israel em meio a Intifada, morto de fome, e presenciar meus companheiros famintos se provendo daqueles pobres que se esquivavam pelos becos, eles os sugavam como que, fazendo um ato de misericórdia, afinal já estavam mesmo as beiras da morte. Degradante.
Desculpem-me se no momento mostro uma teoria clássica e prática, mas me compele ser moderno, afinal estou eternizado e lhes digo que atravessar os séculos vendo a evolução do mundo me deixa um pouco nostálgico. E o que presenciara naquele momento era algo tão rude que confesso, me assustei. Prefiro continuar em minha solidão a me unir a criaturas tão desprezíveis.
Resolvi então que precisava de algo novo, não, não era o sangue de um jovem bonito, tão pouco de um belo rapaz na tenra idade. Eu queria me alimentar de algo ¿diferente¿.
Talvez ideais unidos ao vigor do sangue. Não pensem que sou promíscuo, eu queria algo que seria minha redenção. Lembrei-me de Tav o proeminente jornalista, um homem conhecido e mais, um homem respeitado apesar de seus 28 anos de idade.
Ele morava em Ramallah, era um jornalista ousado e nada escapava aos seus olhos, por isso era sempre designado para fazer as reportagens sobre o grande impasse que era a briga entre nós Palestinos e eles…Os Israelitas.
Sua imparcialidade era espantosa, por isso causava a cada coluna um alvoroço por toda a cidade. Era como se todos esperassem por sua opinião. Honestamente eu admirava aquele rapaz e mais, o desejava, seu sangue, seus ideais e por fim sua companhia. Então decidi que naquela noite eu iria procurá-lo. E fui.
Cheguei no café Issam, (era o café mais procurado pelos jornalistas e estudantes), lá se reunia toda a sorte de pessoas. Se você quisesse saber de algo ou encontrar alguém, com certeza ali era o lugar certo. Lá estava Tav dinâmico, falando e gesticulando para quem o quisesse ouvir.

Ele dizia:

- Viram?! A Marcha de protesto no coração da cidade em nada adiantou! Como Você mesmo pode ver meu caro Hamad, todos os seus esforços foram inúteis contra o que você chama de “vítimas de uma grande farsa”
Ao ponto que Hamad o respondeu ironicamente:
– Claro meu jovem idealista! Homem que domina as palavras como uma faca afiada pronta a cortar seu oponente. Você não deu ênfase a Marcha em sua coluna no jornal. Quase me ridicularizou, fiquei numa situação constrangedora, creio que me culpa de fazer apologia. Em sua visão torpe no que tange a liberdade, você anda dizendo que eu sou um mero aprendiz!

- Não é bem assim meu caro, você chega a ser amoral!
Antes que Hamad de certa forma reagisse às investidas de Tav, foi detido por um amigo.
– Não se inflame meu caríssimo! Venha comigo vamos tomar mais vinho, apesar de tudo hoje é um dia de grande reflexão. Tav é um sonhador não se detenha em seus desvarios.

Todos riram, e foi neste momento, que eu me pronunciei.
– Meus caros amigos! Tudo isso por causa de aliviar a culpa e a responsabilidade do real culpado. Boa noite. Sou Ariel. Acalmem-se não sou o Sharon. Ali ganhei uma certa liberdade e alguns sorrisos.

Quando percebi que Tav me olhava, meus caninos de súbito surgiram me contive bebendo um pouco de vinho, meio desconcertado, olhei para o lado e me acalmei. Foi então que:
– Ora vejam só! Disse Tav. Enfim um homem sem papas na língua seja bem vindo Ariel beba conosco. Acenava gentilmente com o braço.
Ele pediu licença aos demais, e me convidou para conversar em uma mesa mais isolada.
– Cheguei mais perto, puxei uma cadeira e me acomodei. E foi ali que em meio a toda aquela confusão de cigarros, bebidas e algumas brigas, que tracei com minha presa a mais fiel conversa política que tive nos meus últimos anos…Anos?

- Você tem que admitir, o Estado de Israel dominou a Mídia.
– Vamos lá Ariel todos sabem que nós os palestinos encolhemos Israel com gritos de justiça e liberdade.
– Eu ri. Tav conte-me qual é teu maior sonho? Fale-me de seus ideais.
– A liberdade, meu caro já seria um bom começo. O entendimento entre os povos, mas isso me parece um tanto distante.
– Anda cansado não é mesmo?
– De tudo, ando cansado de calúnias que se seguem através da história.

Acho que para quebrar o gelo ele disse, com um breve sorriso:

- Eu queria praticar o ¿breve suicídio¿. Estou farto de ser o homem que revela o lado terrorista e ditatorial de uma briga que vem desde nunca! Eu acredito em tantas coisas, que ando me perdendo em minhas matérias. Mas só eu noto isso.
– Entendo você, é como acreditar em lendas. Como os Vampiros, não é mesmo?
– Seres surpreendentes, conheço algumas lendas sobre tais criaturas. Pura literatura, porém se realmente existem, devem estar no poder, não queria ser mordido por um, meu amigo. Aqueles caninos não me parecem muito amigáveis. Foi então que percebi que o vinho já o havia levado para muito longe daqui. Eu lhe disse que estaria cansado e que precisava dormir, mas como tinha chegado na cidade naquele dia não havia mais hospedagem.

Então…

- Ora deixe disso, você vem comigo esta noite, dorme em minha casa e pela manhã você busca um lugar para ficar. E assim foi.

Quando entramos num dos becos que davam acesso a casa de Tav, a besta incontida que havia em mim veio à tona. E minha fome não era só pelo sangue, mas fome por seus ideais. Naquele momento me tornei o mais temido algoz que eu poderia ser. Enquanto ele ainda falava de seus trabalhos no jornal, avancei para pegar minha presa num movimento rápido e calculado. Tav não teve chances. Encostei-o brutalmente na parede, e pude sentir todo seu corpo, em seus olhos um certo pavor.

- O que acontece com você Ariel!?
– As lendas meu caro, algumas delas são reais.

Foi quando o lancei ao chão. Detido por minha fúria e minha fome eu o imobilizei. Atordoado com o impacto começou a balbuciar palavras de liberdade em pura rendição. Naquele momento lhe mostrei meus caninos. Apertei seu corpo e o coloquei de uma forma em que só olhasse para mim. Neste sentido último ou não, Eu seria seu foco.

- Ariel, um vampiro. Realmente a humilhação é uma estratégia premiada.
– Para os de sua espécie.

Foi quando não pude mais me conter, cravei meus caninos no seu pescoço, bebi daquele sangue que para mim era uma oblação. Tombei minha cabeça para trás extasiado, envolvido num prazer mórbido, me sentia esplêndido. Que sabor maravilhoso tinha aquele sangue, era um misto de vida, ideal de pura entrega. Ele apertou meus braços e continuou.

- Você pode matar um homem, mas nunca seus ideais, mas hoje certamente me fará desejar a morte não é mesmo?
– Não Caríssimo, vou te dar uma escolha. Pode viver comigo, numa vida paralela, onde para nós a morte é vida, e a vida sustento. Ou eu posso lhe dar a morte total e absoluta.
– Vejo que você ataca pessoas por muito tempo Ariel. Um dia alguém poderá se voltar contra você. Se quiser me matar me mate! Mas não quero ser algo monstruoso como você se tornou! Repudio você!
– Tav, meu bom amigo. Você fez a sua escolha! Não declinarei seu pedido de liberdade, ou quem sabe de fuga?

Quis feri-lo com palavras, achando que com isso ele me deixaria imortaliza-lo. Mas não foi assim.

- Vamos lá Ariel, cumpra-se em mim teu destino. Livre-me de tua face!
– Vou te livrar deste monstro.

Foi então que por conta de sua negação em ser meu companheiro o mordia mais e mais, onde houvesse a direção do seu sangue ainda correndo, ali o mordia! Tav estava quase vencido, sem emitir um só murmúrio ficou ali em minhas mãos, e suguei até suas entranhas! E meu ódio por aquela criatura se tornou tamanho, que o dilacerara em suas partes mais íntimas, como se quisesse não só ultrajar seu corpo como também seu espírito. Enfim só havia seu corpo, minhas marcas e minha solidão. Escrevi com seu próprio sangue o meu recado, um aviso para todos!
Como queria aquele ser! O desejei como meu companheiro, como meu interlocutor para várias conversas, queria trazê-lo para minha “Esquadra de Morte e Solidão”, que naquele momento, continuaria tendo a mim seu maior colaborador, solitário entre vários mundos.
Foi assim que sai dali, manchado do sangue da minha própria admiração. Culpando a vítima, foi um recurso do culpado repudiando o horror do seu próprio crime.

Christianni Fonte (Pandora)

Difusa

•21/06/2008 • 1 Comentário

O ar era tudo que ela tinha. O que passava por ela. O que a fazia rodopiar em vários sentidos. Rosa dos Ventos. Era como se agora fosse parte dele. E sendo ar, queria ser terra, queria ser tocada.

Um mistério de pouca fé. Uma vontade ácida lhe invadia e a fazia sonhar. Está em preto e branco, seu colorido desbotado se foi. A pele branca macia estava lá na frente do espelho mágico, seu único interlocutor, pois ele era exatamente seu reflexo.

Ela se escutava por horas, para se sentir viva. Vívida! Atrás dos óculos suas meninas dos olhos brincam, mas não como antigamente. Elas se encontram mais sérias. Dançarinas num salão de pura ilusão. E nesta noite sem estrelas, palco escurecido, nada mais resta do que a sombra refletida de seu rosto na parede do quarto.

Chris F.