Lembranças – Chris Fonte
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Monólogo – Chris Fonte
Falo de coisas que não sei. Olho naquele espelho maldito onde meu reflexo se perdeu faz tempo. A minha sombra não se dilui, está inteira, mas sem mobilidade. E no meu interior são tantos gritos, sou quase um rito. Dor, sono, saudade e angústia. A mistura mais filha da puta que se pode sentir.
Cade vez que olho as minhas cicatrizes, cada vez que penso em tudo que perdi, enlouqueço. Abro meus braços, sinto o vento. E quando abro os olhos só vejo o escuro dos meus pensamentos. Dia e noite vivo como mais uma louca nesta praia de dementes. Mas desta vez serei mais inteligente; Duvido muito, ou não duvido.
Mato um leão por dia para manter-me de pé. Remédio, terapia, mas tudo isso sem uma boa foda não dá pé. Por isso eu mesma me como. Mas o que eu faço com esta dor física? Com este amargo na boca?
Quero um beijo meu bem, que me deixe louca. Quero parar de sentir dor, quero respirar. Quero poder caminhar. Vem cá meu bem, me escuta. Deixa eu gritar meu tesão e minha dor no teu ouvido. Porra!
Me dá amoxilina, fluoxetina, paroxetina, morfina, venlift tudo junto numa bebida quente. Eu quero, poder delirar minhas vontades e talvez assim tenha meus sonhos de volta.
Chega de dizer que eu sou certinha, quero meu dia puta também. Desliga a luz e me deixa no escuro. Talvez assim eu ache meu defeito, e desfaço com prefeição esta vontade louca de voar pela janela.
Vamos lá Donzela do Gelo. Manda todo mundo se foder, agarra o que é teu. Não, espera! E com o passo do tempo aprendia que se pode manejar a espada ou sua bainha, como uma donzela do gelo, passeando numa nave que dá voltas em torno do sol.
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Trecho do filme “Minha Amada Imortal”
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Trecho do filme “Minha Amada Imortal |
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Meu anjo, meu tudo… minha alma gêmea…
Só algumas palavras e a lápis…O teu.
Só amanhã saberei onde vou ficar.
Uma inútil perda de tempo. Por que esta tristeza?
Se estivéssemos juntos não sentiríamos essa dor.
Onde eu estiver estarás comigo.
Logo estaremos vivendo juntos, e que vida teremos.
A jornada foi horrível. Só cheguei aqui as quatro da manhã
Avisaram para não viajar a noite por causa da floresta…Mas isso só me tentou.
A carruagem quebrou numa estrada terrível…Só uma estrada no campo.
Estou completamente retido. Mas achei uma outra e logo estaremos juntos.
Hoje. Espero. Tenho de te ver.
Por mais que me ames, eu te amo muito mais. Nunca te escondas de mim..
Embora ainda no leito, meus pensamentos são para ti… Minha Amada Imortal.
Alguns alegres outros tristes…Aguardando para ver se o destino vai nos unir.
Só posso viver plenamente contigo, ou não viver.
Sim é como deve ser. Agora tenho que dormir tenha calma, amor…
Hoje, ontem…Anseio até as lágrimas por ti. Tu és a minha vida…Meu tudo.
Então, adeus. Continua a me amar. Sempre teu sempre minha…Para sempre.
[trecho do filme "Minha Amada Imortal"]
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Vozes – Chris Fonte
Vozes
Dentro dos teus olhos cidades obscuras
Dois notáveis em fruição plena
Que por várias vezes no simples não se manifestam
Mas no mais alto desta torre, tuas histórias
E o que cabe mais de tuas lendas
Obscuridade enigmática, sem ser, todavia luz
Páginas e álbuns desenhados de um só tema inspirador
Dor real
Cidade irreal, ficcional literatura que corrompes a lápis
Habitua-te a contemplá-la cá de baixo
A doer-te todo corpo num contato difuso
Porque do mais alto desta torre avista-se
Uma cidade que poderia conter-te inteira
Portanto hoje segura o murmúrio de tuas recordações
E no arfar de tua respiração engula novas memórias
E as guarde nas grutas do esquecimento
Porque a cidade que pode conter-te é no piscar de teus olhos
Ligeira e profana
Chris Fonte
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Saudade do Rio… Da Lapa!

Tortura,
Teu nome é saudade
Enquanto você pede uma casa no campo
Eu grito e imploro por uma no centro da cidade
Carioca
Saudade daqueles carinhas lindos tatuados
Suor na correria da Rio Branco
Negro descolado lindo de ser ver
“Cariocada” da Cinelância, do chá no Odeon
Das noites góticas engolidas pelas minhas pupilas
Saudade da brutalidade de quem vive esperando
Sexta “Santa” Feira chegar
Rebola gostosinha nos Arcos da Lapa
Eu te vejo aqui de cima do morro.
Porra, saudade é foda!
Chris Fonte
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Abrigo – Chris Fonte

Entorpecida entre laços e apertos, seu canto calado se afoga no beijo. Corpo pálido, visão difusa que tudo mistura. Deleite de quem tem fome se doa, se comove e se move com lentidão. Corpo informe, fome que devora a solidão.
Então nesta noite sem estrelas onde o frio é cortante, me aconchego no teu corpo, abrigo dos sentidos, onde meus olhos se fecham e minha boca… Bebe na tua.
Chris Fonte
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Pastor e nauta. “Chris Fonte”

Pastor e Nauta
Amo-te e falo deste amor como pastor e nauta.
Grito pelo desejo de ter-te junto a mim como um naufrago.
Deslizo meu olhar sobre o teu rosto e vejo posto ali
Sorrisos e desgosto.
Não durmas para que sonhes com aquela outra.
Contudo sonha-me como anjos alados que te guardam.
Busca-me sim, cá dentro aquela que um dia fui.
E ata-me novamente a ti, para que nunca mais eu me perca de mim.
Chris Fonte
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O Espaço – Chris Fonte

Meu mar era assim, marés altas, baixas e várias ondulações. Escondida atrás das janelas aquelas lágrimas de chuva as molhava. Era quase um rito naquelas noites longas, intermináveis de fato. Contudo era como se por horas seu quarto fosse um suspense total, um eclipse imaginário onde a deixava presa naquele grande e ardiloso espaço.
Ver as ondas de forma escondida, achar que aqueles beijos na areia eram tão inesperados como os beijos que se perderam com o tempo. Algo que ficou ali, quieto sem ruído algum. Na verdade o que a motivava era o fato do rosto dele não sair de sua cabeça. Nas noites mais quentes, seu vício era esboçá-lo num pedaço de papel que reluzia sob a luz azul da TV.
Revirava-se no tapete inventando sorrisos e um céu estrelado só dela. Talvez, todas as suas invenções tenham sido exageradas, mas sua pose de princesa e bochechas rosadas a fazia rodopiar feito à rosa dos ventos. Um balé de exibição ofegante, diante das ondas e daquele “céu-espaço-intranquilo”, coisa de instinto animal.
E lá estava ela sozinha com todo aquele espaço, um presente, uma delicada lembrança, um alívio que nunca quis sentir. Uma branca neve, algo que nunca viu; um salto inesperado, uma distância louca de si mesma.
Contudo sempre haverá uma canção que cante tudo sobre ela, que cante tudo sobre os dois, mesmo que esta música venha daquele mar, e que as letras estejam escritas na areia da praia junto com o esboço do rosto dele, que teima em sumir para ser reinventado por ela naquele espaço.
Chris Fonte.
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Sentidos – Chris Fonte

O vestido rodado contrastava com as luzes que atravessavam as cortinas de cetim barato. Estavam repicadas pelo tempo e por tudo que se temia. Olhando assim de lado, no lusco-fusco daquele ambiente que se dividia em sonhos encomendados, a silhueta desajeitada descansava desbotada em tons de marfim. Não pense que era covardia, mas sim, timidez, uma mistura de pedidos desmedidos, exaustão e sorrisos largos.
Os saltos de carmim e as roupas lustrosas dançavam diante de seus olhos, nenhuma brisa, nenhuma chuva, nem à noite, tão pouco a luz do dia. Não havia respiração, não havia raciocínio. Nada era lógico para quem vivia no inferno do fogo, na luz da noite.
Mas em tudo que ouvia, era como se fosse um crime sem defesa, uma alma perdida. Um sustento perdido no tempo, no fundo do seu olho. Cirandava vestida de princesa, uma coroa de hortaliças e um cetro que não continha magia. No tempo de um abraço sempre era outra pessoa, todos os dias se modificava e se mortificava.
Nalgum lugar, no passado, no futuro então, haveria alguém melhor que ela, algo mais colorido e vivo do que ela almejava ser. Tudo tão passional quanto à inércia de seu próprio corpo fotografado com seu copo preferido na mão. O mundo naquele momento girava em torno dela, uma forma inédita para ela. Era a revolução de todos os seus sentidos, de todos os seus desejos. Seu olhar estava preso em passos pequenos, em vestígios de imensa solidão e até certa dose de ironia.
Sua presença ali era doce e terna, um relance do cansaço da noite refletindo no calor da falta de um abraço. Um mergulho num mar impuro, um vinho acima da temperatura, um banho num chuveiro úmido. Seus traços agora pensados no esfumaçado espelho, eram de desespero. Cabelos molhados, à noite, e um suspiro desajeitado, uma voz que não fazia efeito, uma espera de si mesma.
Nada exorcizava o que sofreu. Sozinha no quarto a fraqueza era querer usar o azul do céu na cor do seu vestido. Mas aquele baile exibicionista iria começar mais uma vez, por isso não podia. Contudo a vida fluía em seus poros, talvez sem timidez, mas banhada numa certa covardia. Em palavras, nos seus olhos buscava as estrelas, pois só sabia ser feliz assim.
Chris Fonte.
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Borboletinha – Chris Fonte

Borboletinha
Chris Fonte
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Em suas asas coloridas
Nas revoadas de cetim
Brinca, brinca a borboleta
Voando em meu jardim
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Passa o tempo, formosa vida
Nas estradinhas de capim
Brinca, brinca a borboleta
Sorridente em meu jardim
lll
Sua beleza pousa afoita
Nos meus lábios de carmim
Brinca, brinca a borboleta
Na minha pele de marfim
“E Leve voa a borboleta na estradinha de capim…”
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Evidências – Chris Fonte
Tinha mudado as cores de todas as cortinas, agora tudo combinava com a tonalidade de sua pele, e com a cor do batom vermelho que usava todos os dias em seus passeios imaginários. Lá fora onde o sol queimava a pele, e a chuva trazia o refrigério, à vida corria em outro ritmo. Estava muito além daquela vida. Era como se atrás das cortinas agora carmim, fosse testemunha de vários desejos alheios, dos sofrimentos e dos sorrisos que ali, bem embaixo da sua janela, as pessoas dividiam com ela.
Talvez ela estivesse fugindo desse próprio mundo que admirava tanto. Pensava consigo mesma: O que teria mudado ao longo dos anos? Seriam aqueles que se passaram pulsantes bem em frente de seus olhos? Seria o amor? As pessoas?
Mas sabia que seus sentimentos estavam dizendo ainda que gelatinosamente a mesma coisa. Sabia que o amor era um sentimento elevado, vinha de sua alma. Por isso, ele precisava de um corpo e de uma mente preparados para recebê-lo de forma adequada.
Mas aqueles dias eram dias desleais para ela, seu único interlocutor era o espelho, pois mesmo que silenciosamente, dizia na sua cara que os anos estavam pesando, em cada marca, em cada ruga expressiva ou não.
Marcava seu corpo indelevelmente com um passado já sofrido, e na tentativa de respirar, inventava um destino incerto. Via nas novas cortinas o oscilar dos sonhos banhados num vermelho intenso. E ali bem ao seu lado observava os números nas horas do seu despertador em forma de pássaro, uma fênix, ela pensava sempre. Renascendo a cada dia no tic-tac, tic-tac musical de seus desesperos e de seus incessantes gritos a beira da janela do tempo.
As brancas paredes estavam manchadas, borradas com marcas de batom, uma história escrita atrás das cortinas, sua prisão em movimento, um teatro inesperado, só dela e para ela. Nada faz sentido para quem tem um mundo a vencer e ela tinha que vencer muito mais.
Fim
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Guerra Interior – Chris Fonte
Bem…Vêem que sou humana, e como todo humano frágil. Ou seria mais forte do que vocês, porque não temo perder o que tenho em mim ?
Guerra interior
Como poderá haver entrega num mundo de tão fúteis valores? Ainda mais fragilizada pelas expectativas indóceis dos meus oponentes. Quixote e escudeiros dementes, mataria um dragão por dia para manter minha sanidade intacta. E mesmo assim sobreviverei ao céu de lanças e flechas atiradas pelos supostos amigos?
Agora virei um porre humano estonteante. Retiraram tudo de mim, me consumiram como erva, me tornei um produto de consumo, disputado no mercado ávido e consumista. Minhas vísceras ficaram expostas em busca da amizade, lealdade e amor, droga leitor o amor não era para ferir e sim revigorar, fazer viver. Acho que foram lutas insanas. Sei lá.
Dragões e flechas atiradas no chão e a pobre mulher investindo sua frágil armadura humana, procurando defender seus nobres princípios acreditando em pessoas justas e sentimentos puros!
Mentirosos e enganadores. Bem, deixem que eles se afundem nas virtudes movediças desta praia de loucos. Maldito mundo de mentiras. Pertence a eles. A mim não. Quando seus gritos de socorro forem enterrados nas areias do esquecimento, se lembraram de mim. Lembrará-se de mim.
Vou ter que sobreviver a isto, não vou abdicar dos menores princípios que me regem, se não pela vontade espontânea de realizar o que for ditado pelo coração e pelo bom senso. E ver em tempo o fim da história.
Chris Fonte
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Sem Asas – Chris Fonte
És aquele mundano
Que busca seu canto
No canto do olho
Direito
Que sai pelas noites
Tórridas, lacrimejantes
Profano anjo sem asas
Caído
Tomando almas
Lambendo corpos
Almas sutis que corrompes
Sem golpes
Teus olhos verdes
Tua pele cálida
Embala, minhas
Entranhas
Estranha magia
Feitiçaria, “macumbaria”
Que me rendeu
Desespero de amor
Misturando a emoção
De provar-te
Decifrar-te
Nos movimentos
De tuas entranhas
Deixa, calar-te
No escarlate deste beijo
E cobrir teu corpo
Neste linho da mesma
Cor
Chris Fonte
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Flor de Lótus
Nada era o que parecia ser ou tudo que ela via não passava de vultos de um tempo onde a memória se perdia. Pensamentos fragmentados, corpo abrasivo, silêncio feito de ausência.
Com lábios entreabertos e displicentes, como as asas daquela xícara de café borrando a toalha de linho e a indefinível visão de um cigarro queimando entre os dedos.
Os pensamentos, como fumaça, gritavam entre as quatro paredes. Aqueles silêncios, aquela fumaça não tinham passado, presente ou futuro. Eram os furos no mundo e de um outro lado uns casulos, cercados de farpas latejantes. Era uma em três, por isso não sabia de onde vinha aquela chuva e depois dela, era uma só, novamente toda doce, toda ácida como a rima da vida.
E neste movimento quase que perpétuo, ela permitia que todo o seu saber se sedimentasse, fortalecida pela sabedoria de sua vida. Mas a sabedoria acumulada feito água no cano, tinha para ela um canto diferente, até porque o seu coração ainda batia, e bombeava sangue em suas veias. Sobre seu peito marcado de um ocre vermelho, a terra pigmentada assinalava símbolos de um mistério que ela não sabia entender.
Então, oculta e adormecida desejando aflorar novamente, cheira sua flor de lótus e flui para sua antiga consciência, redescobrindo naquela flor seu próprio ritmo, desejo e sua necessidade de permanecer permeável, sem estar no fundo de um poço sem fundo.
Chris F.
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Meninos e Meninas
Meninos e Meninas
Ás vezes as palavras podem modificar as coisas, podem transformar. Olhar o mundo e ver nele simbolos de uma vida inteira. Um cenário incontestável de verdades. Composições do coração em palavras. Lembro-me de quando eu era menina e ouvia os casos, e as histórias que eram fantásticas, todos sabíamos disto. Mas nunca ouvíamos dizer: “Você está mentindo”. Faz pouco tempo que me dei conta, que naqueles casos o julgamento da verdade e falsidade não entravam, pois tudo era dito para construir mundos belos, engraçados, grotescos e fantásticos.
Mas nunca falsos. Portanto chegou um tempo, onde as palavras deixaram de significar e abandonaram o mundo de fantasia, da verdade e da falsidade. Com isso passaram a existir ao lado das coisas visíveis. Assim podemos nos confundir e cometer grandes equívocos. Um deles e quem sabe o mais temível, ocorre a todo momento com várias pessoas: “Esquecemos dos contos, das histórias fantásticas e deixamos de sonhar cada palavra.” Deixamos de vislumbrar mundos incríveis, seres mágicos, criaturas inventadas. Deixamos de ser simplesmente, meninos e meninas, de corações abertos.
Um beijo, um beijo infantil.
Chris F.
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Duplo
Duplo
Então eu estava diferente. E ele foi direto para o banheiro, abriu o chuveiro e começou a falar sozinho. Cantou, e também pronunciou palavras que me faziam vibrar em freqüências diferentes. Abriu seu pulmão, e a cada respiração que dava, eu podia sentir as moléculas de ar dançando em todas as partes.
Eu estava vazia, e meu vazio lhe abraçava por todo os poros. Eu era um ser totalmente em branco e ele era meu contorno imaginário.
Pensei, em tirar uma foto de mim mesma, retratar de algum modo todo aquele momento de dúvidas e incertezas. Não pude fazê-lo.
Então ele se posicionou em frente ao espelho e lá escreveu o que eu estava sentindo de forma embaçada. Foi quando dormi.
Assim que acordei, curiosa, fui até o banheiro para ler a frase que ele ali deixara. Mas ela não estava mais lá, havia evaporado.
Nem ele, nem eu, tínhamos todos evaporados como aquele texto que se perdeu em poucos momentos. O que restou foi um rosto, e dois olhos, que nunca se viram.
Chris F.
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EscatológicaMente
- Acende a luz?
- Para que?
- Preciso ver melhor… Entender
- Ver o que?
- As inscrições que aparecem nesta parede pintada de pretoEra sua mente lar de todos os sonhos, os que não conseguia conter, vertiam em formas de lágrimas que borravam a maquiagem de boba da corte que estampava no seu rosto. Frio. Vivia solitária, naquela caixa de vidro onde sua respiração era a única coisa que tinha forma, pois brincava de esfumaçar o vidro para saber se anda tinha forças para lutar. Era toda ferida de farpas, não tinha mais a mesma habilidade que antes de suprimir os problemas e deixá-los para trás. Estava acuada demais, estava sem saída.
As lembranças chicoteavam seu presente, e a dor das coisas que nunca viveu eram maiores do que tudo. E ainda havia a saudade.
Dos dias de chuva.
Dos dias de sol.
Da pracinha.
Do olho verde.
Do menino mais lindo do colégio.
Saudades de quando imaginava ser feliz, sem precisar de muito.
Saudade daquele cara no sinal de trânsito gritar de dentro do carro: “Que pernas lindas você tem!”. E eu apenas tinha 15 anos
- Acende a luz?
- Para que?
- Preciso entender… Ver melhor
- Entender o que?
- Esta parede pintada de preto e essas inscrições que aparecem nela
A luz permanece apagada. Ele não a deixa compreender o que a leva ser assim. Então ela segue presa no tempo, tateando no escuro tentando achar aquela saída. Sua armadura está corroída pelo tempo. Não se movimenta. Recebe todos os golpes de uma forma alucinada, alucinante. Todos os seus pensamentos estão desencontrados tentando se encontrar. Seu grito está preso na garrafa. E o socorro não chega. Sua lucidez é sua melhor loucura, não fala mais coisa com coisa, tudo é um misto de medo, e incertezas. Seu peito esta incendiado por coisas que jamais cometera, dentro de sua cabeça sente os relâmpagos reluzentes que a conduzem para mais longe. Está drogada. Está com dor. Está sem alma.
Saudade de dormir bem.
Saudades de não sonhar.
Saudades de brincar.
Saudades de quando sentia que dominava o mundo, porque queria ser… Médica, ser forte, ser dentista, ser uma artista, queria ser da polícia, queria ser o Wolverine e dominar os sonhos feito o Sandman. Hoje não é porra nenhuma.
Saudades
Tornou-se talvez um porre ambulante, embriagando-se de si mesma, na insanidade diária, nas drogas diárias, nas vontades que assolam e perturbam seu espírito. Na Faculdade de Teologia… Escatologia era seu forte. Tão forte que vive cada dia de forma escatologicamente doentia.
Sem sentido. Onde está Pilatos?
Chris Fonte
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Sentidos
Bebe na minha boca e sente
este veneno
Que levemente se espalha
Dividindo contigo a loucura
de meus pensamentos
que nos invade neste quarto
de obscuros desejos
Bebe na minha boca e sente
este amargo
Que se espalha levemente
Nas nossas entranhas
no alívio do rio dos sentidos
no tapa que alivia toda dor
de não sentir o frescor do tempo
Bebe na minha boca e prova
da minha saliva
Que banha teus lábios
lascivos e pálidos de tantas mentiras
Bebe na minha boca e prova
esta coisa infome
Este meu beijo que te sela
Que me faz entorpecer
Bebe na minha boca as horas
que se perdem em cada parte
tua, minha, nossas
levando-nos a progressiva
dependência
Bebe na minha boca
estes sonhos de que nada é tão
medonho dentro deste peito
Bebe na minha boca
e dorme
para que eu descanse
entre as pontas de tuas asas
Depois
Prova-me que na loucura das horas
tudo pára.
Menos a vontade de dividir
contigo
os cinco cálices deste vinho
Que tomaremos
sem sentir
sentindo.
Chris Fonte
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Algemas
- Abre essas algemas vai.
- Não, eu não me sinto seguro…
Ele estava lá, e eu ali perdida no tom amarelado do quarto, no escuro do peito ferido de tantas verdades. Éramos como “uma coisa sem forma”. Não sabia mais onde eu começava e ele terminava. Somos agora uma mistura de água e terra, nos tornamos lama.
Eu buscava marcar no seu corpo a minha busca pelo melhor dele, ele tentava retirar dos meus olhos água parada que eu nunca mais lacrimejei. Descobrimos que no canto do olho direito é onde abrigamos os sonhos, e no olho esquerdo, isto mesmo, é ali que eles se perdem.
Ele abria suas asas e eu tentava fazer com que ele não voasse. Ele me dizia não escreva isto, mas nas paredes eu contava nossa história. Contudo ele queria estar livre, queria que eu pegasse a chave, mas acostumado a estar preso tinha medo vôo.
Então como há muito tempo não acontecia meu olhar ficou úmido, e quando me virei vi as algemas no chão. Ele estava de pé, livre e seguro de si. Precisava para se libertar de um choro sincero. E sem perceber, dei isto a ele. Abriu os pulmões, expandiu as asas e disse:
- Agora eu vou sair. Sem medo, sem algemas.
Foi assim que o sonho terminou nesta manhã de quarta-feira. Assim entendi, que os sonhos não podem viver aprisionados, de alguma forma temos que libertá-los. Mesmo que eles fiquem no campo passível de várias decepções. A Isto damos o nome de coragem, coragem para se jogar ao mundo e viver.
E com o passo do tempo aprendia que se pode manejar a espada ou sua bainha, como uma Donzela do Gelo, passeando numa nave que dá voltas em torno do sol.
Chris Fonte
Solitude
Entorpecida entre laços e apertos, seu canto calado se afoga no beijo. Corpo pálido, visão difusa que tudo mistura. Deleite de quem tem fome, se doa, se comove e se move com lentidão.
Corpo informe, fome que devora a solidão?
Não.
Então, nesta noite sem estrelas, onde o frio é cortante, me aconchego no teu corpo, abrigo dos sentidos, onde meus olhos se fecham e minha boca… Bebe, se perde na tua.
Chris K. Fonte. Foto e Texto
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