Flor de Lótus

Nada era o que parecia ser ou tudo que ela via não passava de vultos de um tempo onde a memória se perdia. Pensamentos fragmentados, corpo abrasivo, silêncio feito de ausência.

Com lábios entreabertos e displicentes, como as asas daquela xícara de café borrando a toalha de linho e a indefinível visão de um cigarro queimando entre os dedos.

Os pensamentos, como fumaça, gritavam entre as quatro paredes. Aqueles silêncios, aquela fumaça não tinham passado, presente ou futuro. Eram os furos no mundo e de um outro lado uns casulos, cercados de farpas latejantes. Era uma em três, por isso não sabia de onde vinha aquela chuva e depois dela, era uma só, novamente toda doce, toda ácida como a rima da vida.

E neste movimento quase que perpétuo, ela permitia que todo o seu saber se sedimentasse, fortalecida pela sabedoria de sua vida. Mas a sabedoria acumulada feito água no cano, tinha para ela um canto diferente, até porque o seu coração ainda batia, e bombeava sangue em suas veias. Sobre seu peito marcado de um ocre vermelho, a terra pigmentada assinalava símbolos de um mistério que ela não sabia entender.

Então, oculta e adormecida desejando aflorar novamente, cheira sua flor de lótus e flui para sua antiga consciência, redescobrindo naquela flor seu próprio ritmo, desejo e sua necessidade de permanecer permeável, sem estar no fundo de um poço sem fundo.


Chris F.

~ por Pan em 08/08/2008.

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