Evidências – Chris Fonte
Tinha mudado as cores de todas as cortinas, agora tudo combinava com a tonalidade de sua pele, e com a cor do batom vermelho que usava todos os dias em seus passeios imaginários. Lá fora onde o sol queimava a pele, e a chuva trazia o refrigério, à vida corria em outro ritmo. Estava muito além daquela vida. Era como se atrás das cortinas agora carmim, fosse testemunha de vários desejos alheios, dos sofrimentos e dos sorrisos que ali, bem embaixo da sua janela, as pessoas dividiam com ela.
Talvez ela estivesse fugindo desse próprio mundo que admirava tanto. Pensava consigo mesma: O que teria mudado ao longo dos anos? Seriam aqueles que se passaram pulsantes bem em frente de seus olhos? Seria o amor? As pessoas?
Mas sabia que seus sentimentos estavam dizendo ainda que gelatinosamente a mesma coisa. Sabia que o amor era um sentimento elevado, vinha de sua alma. Por isso, ele precisava de um corpo e de uma mente preparados para recebê-lo de forma adequada.
Mas aqueles dias eram dias desleais para ela, seu único interlocutor era o espelho, pois mesmo que silenciosamente, dizia na sua cara que os anos estavam pesando, em cada marca, em cada ruga expressiva ou não.
Marcava seu corpo indelevelmente com um passado já sofrido, e na tentativa de respirar, inventava um destino incerto. Via nas novas cortinas o oscilar dos sonhos banhados num vermelho intenso. E ali bem ao seu lado observava os números nas horas do seu despertador em forma de pássaro, uma fênix, ela pensava sempre. Renascendo a cada dia no tic-tac, tic-tac musical de seus desesperos e de seus incessantes gritos a beira da janela do tempo.
As brancas paredes estavam manchadas, borradas com marcas de batom, uma história escrita atrás das cortinas, sua prisão em movimento, um teatro inesperado, só dela e para ela. Nada faz sentido para quem tem um mundo a vencer e ela tinha que vencer muito mais.
Fim


Queria saber tocar violão pra musicar isso.
É uma letra de música.
Que crianças ouviriam e dançariam em roda pagã.
E que adultos defenstrados como eu, já chutados e que chutaram, recordam de uma beleza que pode fazer menos BARULHO que o cotidiano e ser isso que vc escrever:
Como não sei tocar violão, enttro devagar com minha língua, como se fosse um elemento da natureza dentro de você.
LINDO !