
Meu mar era assim, marés altas, baixas e várias ondulações. Escondida atrás das janelas aquelas lágrimas de chuva as molhava. Era quase um rito naquelas noites longas, intermináveis de fato. Contudo era como se por horas seu quarto fosse um suspense total, um eclipse imaginário onde a deixava presa naquele grande e ardiloso espaço.
Ver as ondas de forma escondida, achar que aqueles beijos na areia eram tão inesperados como os beijos que se perderam com o tempo. Algo que ficou ali, quieto sem ruído algum. Na verdade o que a motivava era o fato do rosto dele não sair de sua cabeça. Nas noites mais quentes, seu vício era esboçá-lo num pedaço de papel que reluzia sob a luz azul da TV.
Revirava-se no tapete inventando sorrisos e um céu estrelado só dela. Talvez, todas as suas invenções tenham sido exageradas, mas sua pose de princesa e bochechas rosadas a fazia rodopiar feito à rosa dos ventos. Um balé de exibição ofegante, diante das ondas e daquele “céu-espaço-intranquilo”, coisa de instinto animal.
E lá estava ela sozinha com todo aquele espaço, um presente, uma delicada lembrança, um alívio que nunca quis sentir. Uma branca neve, algo que nunca viu; um salto inesperado, uma distância louca de si mesma.
Contudo sempre haverá uma canção que cante tudo sobre ela, que cante tudo sobre os dois, mesmo que esta música venha daquele mar, e que as letras estejam escritas na areia da praia junto com o esboço do rosto dele, que teima em sumir para ser reinventado por ela naquele espaço.
Chris Fonte.